ϟ O cansaço, a rotina e algumas drogas.
Um monólogo sobre uma parte de minha vida chamada: Despertar.
O despertar do relógio avisa que mais um dia está pra começar. A mesma rotina desgastante se inicia como qualquer outro dia, o mesmo café, a mesma fresta quebrada em meu apartamento no quarto andar daquele prédio sem vida no meio da Rua Augusta. É o mesmo dia, a mesma hora tenho que trabalhar, e correr por essas ruas para ter a mesma sensação do que os outros dias. É o mesmo dia, mas eu gostaria que fosse diferente. Quando se vive na infância achamos que qualquer ponto, qualquer palavra é linda, qualquer encanto vale muito e mais do que isso. Qualquer pedaço d’algo é bom. Os filmes te enchem de ilusão, seus pais têm dó de te tirar de seu mundo feliz e te jogar nessa realidade maçante que apenas aos dezoito anos poderá de fato começar a entender, ou não. Passo meus dedos pelo meu rosto, os cabelos maltratados por conta da poluição dos carros. O mesmo olhar distante de quando era apenas uma criança. A mesma pessoa que vive dentro de mim e teve que mudar por conta desta realidade. Eu estendo minhas mãos pela mesa e seguro um livro de auto-ajuda: ‘você faz a sua própria realidade’. É o título daquela droga.’’ Quanta ironia.’’ Eu penso.
Será que estes escritores não vêem que estão apenas enganando as pessoas? Tudo bem, é um livro de auto-ajuda. Mas para as pessoas comprarem isso, é porque chegaram a um período deplorável da vida. Aliás, o que esta droga está fazendo em minha mesa? Claro, ganhei em meu último aniversário. Igual todos os anos, um livro de auto-ajuda eu recebi. Realmente não devo ser a mesma de 10 anos atrás, cheia de vida e com um sonho em cada dedo pronto pra indicar ao céu. Quando não podia mais contar os minutos pra ter a liberdade que eu tanto ansiava. ‘’Que merda’’. O pensamento gira em minha mente e percebo que já estou atrasada para o trabalho. O ônibus que eu pego acaba de passar. Afinal, por que estou neste trabalho mesmo? Por que ainda uso o mesmo corte de cabelo do que antes? Por que tenho o mesmo olhar sem direção, e ainda continuo sozinha por aqui? ‘’Essa merda de rotina está acabando comigo.’’ Acendo um cigarro e a cada tragada vou pensando nas mesmas coisas iguais que ando fazendo durante os anos. No mesmo ‘nada’ que não alcancei, e na mesma droga de espaço que eu conquistei. ‘’Você tem que começar por baixo’’. Disseram-me uma vez, então por qual razão ainda estou aqui? Rolando por entre as ruas, empurrada por motivos que já não coincidem com o que eu tive um dia. Eu quero viver, quero mandar todos se fuderem. Não quero precisar de ninguém. Quero alcançar o céu e ter os mesmos sonhos altos de quando era criança e tinha alma tão cheia que não cabia em mim. ‘’Quero minha vida de volta’’. Afinal, viver nestes moldes anda corrompendo meus ossos, logo serei mais uma solitária nas ruas de São Paulo. E cá entre nós… a solidão nunca fora um ponto positivo a ser citado. No fundo todos acham que lidam bem com ela, mas já estou eu choramingando minhas feridas que você, leitor, desconhece. Percebem a confusão que se passa em minha mente?
Eu quero viver, quero mandar todos se fuderem.
Eu citei isso ali em cima, então por qual razão estou falando de solidão? Ah… Essas drogas que infiltram em nossa realidade. Isso deveria ser pena perpétua. Já que não há droga mais poderosa do que esta, mais devastadora, a vantagem? Não é preciso usar na veia. A desvantagem? Os efeitos colaterais dependem de usuário para o usuário. É, poderia dedicar mais do que um parágrafo para tal assunto, mas como estava dizendo…
Eu comecei a escrever essa prosa, sem expectativas. Ainda que nada disso adiante, que ninguém venha a ler. Irei me sentir melhor, eu espero. E a propósito, é isso que estou fazendo. A narrativa sobre mim pode estar um tanto chata. Mas quer saber? Eu não ligo. Eu já rasguei os moldes, as expectativas. Não irei sonhar com outra vida. Irei conquistar cada parte de morte que cultivei aqui. Irei largar meu trabalho, voltar a estudar. Não serei um desperdício de espaço. E é isso que ninguém entende… Eu posso começar a escrever e fazer um livro que de fato acorde as pessoas. Mas quem compraria? Nos dias de hoje as pessoas compram mentiras nas prateleiras do supermercado. Quanta ironia.
(via de-assis)
ϟ E a moça…
O moço a corteja com doçura. É um bom rapaz. Nota-se pela forma como trata sua amada. Nota-se pela forma como anda, pela forma como se veste. Ele a ama, disso não há dúvidas. Ela é uma bela moça, disso também não há dúvidas. Conversam baixinho sentados na escada da casa da moça. Já é noite, e tarde. Ela devia já ter se recolhido, mas não resistiu e novamente fugiu ao encontro de seu encanto. Ela apreciava as belas palavras do moço, calada. Ouvia-as com atenção. Guardava-as na memória para que pudesse sempre relembra-las. Certa vez, pediu ao moço que as escrevesse. Ele escreveu, jamais negaria um pedido dela. Mas ela chegou à conclusão de que era melhor ouvi-lo. Assim, poderia também guardar a voz dele. Eis um trecho da prosa dos enamorados:
- Mas não há como! Papai nunca vai deixar… – disse ela aos suspiros
- Não perca as esperanças, pequenina, não assim tão fácil. Hei de tentar. Se não conseguir, fugimos.
- Papai pode te matar!
- Não tenhas maus pensamentos, pequena – disse ele, acolhendo o rosto dela em suas mãos – Não faz bem pra alma ingênua nem pra alma alguma. Amanhã mesmo venho pedir.
- Já que não desiste, render-me-ei, não tenho escolha! Agora vou voltar ao quarto antes que me percebam aqui.
- Espere um pouco - disse o moço. Tirou do bolso uma flor e prosseguiu – “Mimosa Ninfa, glória de Amor, dás-me um beijinho, por esta flor?”
A moça relembrando o poema de Bocage certa vez citado nos ensinos da escola completou:
- “Sou criancinha, não tenhas pejo” – sorriu-lhe e lhe deu o beijo.
Assim brincaram tão como Fílis e Amor. Um beijo, o outro e um último, antes de voltar à cama. Voltou ao quarto alegre como nunca antes. Deitou-se ainda perdida em devaneios. Relembrou cada palavra e cada momento daquela noite. Lembrava e relembrava os beijos. Levantava-se a dançava pelo quarto girando e girando. Deitava-se novamente. Até que foi dormir. Teve com o moço bons sonhos.
(…)
ϟ Conversa de botas batidas
Era noite de inverno e aquele senhor corria de si sem sair do lugar; se debatia em sua velha poltrona, agora já empoeirada, violentamente como ondas em rochedos. O mar em suas idas e vindas fazia ligações desesperadas e chorava enquanto a maresia mostrava, calmamente, o seu odor suave e cadavérico.
E não mais que de repente, fez-se a luz. E da luz fez-se o lugar. Já não era mar nem água, já não era ondas nem maresia. Era vento e deserto, silêncio e paz. Do silêncio, quebrou-se em barulho, do vento acendeu-se a fumaça e daquele belo deserto fez-se um trem que seguia lentamente pela areia como uma cobra se arrastando.
Escuta-se um barulho agudo de freio. Ferro com ferro. Como de costume ao escutar estes sons, o Senhor fez uma careta.
-Olá, monseigneur. - Disse o maquinista do trem, aparentava ter vinte e seis anos, porém algumas rugas já cobriam o seu rosto.
-Oi.
-Vamos embarcar? - Disse O Maquinista.
Em tuas eternas dúvidas na vida não acreditava em nada. Como de costume não arriscou-se.
-Pra onde esse trem vai? Aonde eu estou, afinal?
-Perguntas não entram no trem, monseigneur.
-O que entra? - Disse o Senhor, continuando com suas perguntas.
-A felicidade, o passado, os amores e recordações e as tristezas.
-E aonde estão minhas malas? - Disse curioso, como que desafiando O Maquinista.
-A tua direita, a felicidade.
Então o Senhor olhou para a direita e fez-se a bagagem da felicidade. Cuidadosamente a pegou em uma das mãos e sorriu para o maquinista.
-A tua esquerda, os amores e recordações.
Já sabendo o que iria acontecer, o Senhor pegou a outra bagagem com sua mão esquerda, relembrando todas as memórias de seus antigos amores e até os seus mais recentes que guardava pra si.
-A sua frente, o passado.
O Senhor olhou para a frente e disse em tom de tristeza para O Maquinista
-Não tenho mais mãos para carregar o passado, o que faço agora?
-Deixe-o para trás. - Disse em um tom de entusiasmo a ele. - Agora vamos!
O Senhor dirigiu seus passos logo atrás do Maquinista quando lembrou-se
-Espere! E a tristeza?
-Ela não cabe no trem. - Disse O Maquinista, serenamente sorrindo.
Entendido o recado, andou e escolheu um dos últimos vagões; sentou-se na cadeira com a sua felicidade,seus amores e recordações, deu um sorriso e partiu em sua viagem para sabe-se lá aonde…
Kalil F.
(via de-assis)
(via de-assis)
Com um tico de ar e um teco de lar
Com um nada de mim e um muito de si
Perdido no acaso predileto dentre todos
Acompanhado da mala azul
Um presente quase recusado
Por pouco não viciado
Como droga da segunda esquina
Ou a debaixo do viaduto do bairro
Ao som de um bolero desentoado
No finzinho da madrugada ensolarada
Rodeado de amigos ignorados
Por hoje forçosos, só por hoje. —(Nicole Castilho) - Trambecando (via emboscadateatral)
(via de-assis)
minha casinha de sapê, meu chão de estrelas, minha marolinha de praia,
meu ensopadinho de frango com quiabo, minha montanha russa,
meu sapato velho, meu dentinho quebrado, minha coceirinha
na nuca, meu verão, minha primavera, inverno, meu
amado Outoninho, não te esqueças que das
minhas posses, tu és a única que não
possuo, mas tenho-a nos meus
versos quebradiços da
minha (tão sua!)
poesia —Outono de Mim, “Quebradiço”. (via outonodemim)
(via de-assis)
(Fonte: giu-lianna, via isabellaranha)